Você já viu como é ser voluntário na África?

Quando se fala em África a galera tem duas reações: (1) achar o máximo e (2) falar de medo, insegurança, doenças, guerra e afins. Mas vejam só, a África é um continente enorme, com diversos países que, sim, alguns estão em guerra, mas outros não. Eu escolhi o Quênia para fazer meu voluntariado.

Mas porque o Quênia?

Na verdade, o Quênia me escolheu. Na época estava prestes a me formar em Biomedicina e queria poder ajudar em um projeto que soubesse o que estava fazendo, e assim brilhou os meus olhos quando descobri o hospital Msambweni, na costa leste do país. O meu projeto foi diferente de tudo o que pesquisei e vi nas redes sociais, não envolveu crianças fofas, nem animais; envolveu pessoas, de todas as idades, dos bebês aos vovôs, só que de forma indireta. O trabalho me fazia ter bastante contato com os pacientes, porém, passava a maior parte do tempo dentro do laboratório realizando os exames (e, claro, aprendendo muito).

O programa foi da empresa Exchange do Bem (http://exchangedobem.com/), além deste que fui, eles possuem uma gama enorme de projetos em diversos países. Com programas relacionados à educação, empoderamento feminino, esportes, saúde, animais e por aí vai. O contato é todo feito via telefone ou e-mail, o que pode parecer uma furada no início, mas o pessoal é extremamente organizado e está sempre disponível para responder qualquer dúvida antes e durante o projeto.

Me hospedei na comunidade de Kona ya Musa, Ukunda, próximo à praia Diani. A cidade mais próxima é Mombasa, a segunda maior cidade do país, uma ilha conectada ao continente por pontos e balsas, além do turismo a cidade vive do comércio através do seu porto. Fui extremamente bem recebida pela família e pela comunidade, o pessoal adora conversar com estrangeiros, contar suas histórias e perguntar como que funcionam as coisas onde vivemos. A casa era simples: dois quartos, um banheiro, sala e cozinha; no pátio haviam porcos, galinhas da angola, coelhos e uma horta. As refeições sempre preparadas na hora, com bastante legumes e verduras, me impressionei com a similaridade dos pratos com o Brasil. Claro, que usavam temperos diferentes ou até alguns ingredientes diferentes, mas a base era bem parecida. Arroz, feijão ou massa, frango ou peixe – fome não se passava.

O transporte para ir e voltar do hospital era o Matatu, basicamente uma van toda estilizada com motorista e cobrador. A loucura era que não existem paradas ou pontos de “van” para subir e descer, o cobrador fazia sinal, pela porta aberta com o braço, indicando se iria reto, virar à esquerda ou à direita na estrada. Dentro é ainda mais doido, se está vazio é super tranquilo, todos sentados em seus lugares e segue o baile, o legal era quando lotava, sentavam 5 pessoas onde caberia 3, as crianças nos colos de desconhecidos e até pessoas se apoiando nos espaços entre o acento e a lataria. Para descer, deveria bater na lataria do carro indicando que se aproximava do lugar (eu sempre falava com o motorista e dizia onde queria descer). Só que, porque facilitar? Haviam pontos na estrada em que se trocava de motorista e de cobrador.

Para rotas mais curtas e fora da estrada por onde andam os matatus, os tuktuk eram o sucesso. Poderia escolher ainda se queria privado ou compartilhado, caso escolhesse a segunda opção eles iam pegando novos passageiros durante o percurso. Eu sempre preferi o compartilhado, além de sair mais barato, ainda conversava com os locais, ouvia novas histórias, experimentava comidas típicas e ainda recebia dicas do que fazer.

Sobre a segurança, devo dizer que me senti mais segura lá do que me sinto no Brasil. O tempo todo o pessoal que conversava me dizia quanto que custavam as passagens, as melhores rotas, qual o melhor ponto da praia para ficar, onde evitar. O medo deles era que passassem a perna em mim por, claramente, ser de outro país, e, apesar de tudo, não houve uma situação na qual me senti insegura enquanto andava pelas ruas.

O projeto teve duração de 3 semanas, trabalhando 6h por dia, 5 dias na semana. Dessa forma, eu tinha os finais de semana para explorar os arredores de Diani e fazer os passeios mais inesquecíveis da minha vida.

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Safari

Pelo pouco tempo que tinha, somente dois dias, escolhi fazer o safari pelo parque nacional Tsavo East. Foram dois dias e uma noite, com direito a 3 safaris, ou seja, sair com o carro para procurar os animais em três momentos diferentes. O primeiro contato foi logo que chegamos, aproximadamente pelo meio dia, 2h dirigindo pela savana. Vimos muitas zebras, elefantes, porcos selvagens (pumba), espécies diferentes de veados e muitos pássaros. Almoçamos no hotel e saímos às 16h para o novo safari, a ideia era pegar o cair da tarde e início da noite.

Mais 2h no carro observando um cenário incrível: animais selvagens, soltos, vivendo suas vidas, e o céu mudando de cor com o pôr do sol. Conseguimos ver girafas, búfalos, mais elefantes, veados, pássaros e zebras. Retornamos ao hotel no fim do dia para jantar e dormir, afinal as 5h30 estaríamos de pé para tentar ver mais animais. E assim foi, com muita sorte, nosso grupo conseguiu observar leoas, o que é muito raro de ver, além dos demais animais que vimos diversas vezes e mesmo assim cada um que surgia é um encanto novo.

Valor: aproximadamente US$ 380,00; com tudo incluso, exceto bebidas

Scooba diving

Quem disse que na África só tinham animais terrestres? Nunca tinha me passado pela cabeça que faria dois mergulhos de cilindro nas águas do oceano índico, na costa do Quênia. Foi uma manhã agitada, desde as 6h30 no ponto de encontro para o treinamento na piscina até as 13h quando retornamos a terra firme. Mergulhamos pelos corais de Diani, vimos tartarugas gigantes, peixes estranhos, ouriços, estrelas do mar e até raias. O mergulho é feito com instrutor, todos os equipamentos necessários e lanche no barco com frutas e água. Cada mergulho durou cerca de 1h30.

Valor: aproximadamente US$ 90,00

Wasini Island – África

Com certeza essa foi a maior surpresa, passeio indicado pela família que me hospedou e pelos colegas do hospital. Fomos até quase a divisa do Quênia com a Tanzânia, na comunidade de Shimoni, pegamos o barco e seguimos em direção à Wasini Island. As águas que rondam a ilha são protegidas pelo parque de preservação dos animais marinhos. Fizemos snorkeling pela barreira de corais podendo observar diversos peixes super coloridos, um em especial me chamou a atenção: o peixe leão, possui uma espécie de juba ao redor muito diferente e bonita.

Vimos lagostas, tartarugas menores, raias e, de quebra, ainda vimos golfinhos. Nesse passeio há a possibilidade de tentar nadar com os golfinhos, digo tentar pois eles são muito rápidos e é bem difícil chegar perto deles. São animais selvagens, não acostumados com a presença do homem, portanto é bem compreensível que seja complicado chegar perto. Almoçamos na ilha em um restaurante de frente para o mar; vista e brisa perfeitas para o momento. Após fizemos um último passeio para tentar gravar na memória e retornamos para a cidade.

Valor: aproximadamente US$55,00; com tudo incluso, exceto bebidas

Skydive Diani

Para os amantes de adrenalina, a praia de Diani é palco para diversos esportes radicais. Dentre eles o paraquedismo chama atenção cada vez que você está tranquilo no bar e vê eles descendo pelo céu. O meu ponto preferido na praia era próximo ao bar Forty Thieves, fica pouco mais distante dos resorts e tem menos movimento na areia. Para minha sorte, era ao lado da empresa Skydive Diani. Não tive dúvidas (na verdade tive, e muitas) de que queria me jogar de um avião e sentir o vento passar por mim. Escolhi o horário das 16h30, pois queria ver o pôr do sol lá de cima. Animada e nervosa, fui me tremendo toda para o carro junto com mais paraquedistas experientes para o pulo da minha vida. Chegamos no aeroporto de Diani e seguimos direto para o aviãozinho que nos levaria até 11 mil pés.

Todo o esquema funciona da seguinte forma, você fica conectado com o seu paraquedista na cintura e nos ombros, ele fala para você ir naturalmente até a porta do avião e colocar os pés para fora. Você fica ali, na posição de banana que eles chamam, cabeça para trás e joelhos dobrados; e quando menos espera vocês estão caindo, a sensação disso é indescritível, desculpem. Da vontade de gritar, de dançar, de abraçar todo mundo, a alegria é extrema, adrenalina correndo pelo corpo faz você querer que continue em queda livre (sabemos que isso não seria muito interessante). Quando abre o paraquedas que o passeio começa, é possível ver tudo, curtir o dia, o pôr do sol, a praia. 10min voando e pensando nas possibilidades que a vida nos traz. Com certeza uma experiência que todos deveriam ter.

Valor: aproximadamente US$ 350,00 sem filmagem e fotos;

US$ 550, com filmagem e paraquedista extra para as fotos.

Dica: Os valores dados aos turistas é incrivelmente maior do que para os locais, dessa forma é interessante conversar com um local e fazer a negociação junto com ele.

A experiência de ir viajar para trabalhar na área que você dedicou anos estudando, sentir que pode tocar a vida de algumas pessoas, crescer tanto no âmbito pessoal quanto no profissional, conhecer e fazer parte de uma nova cultura, se abrir para oportunidades é mesmo sensacional. Uma das coisas que mais ouvia enquanto estava lá era o quão forte eu era, por estar sozinha, ter encarado de frente, ir para uma comunidade meio distante, trabalhar com doenças prevalentes, ter que se virar com a precariedade dos laboratórios. Era forte, por ser mulher nesse mundo que ainda não facilita a nossa vida, estar lá por conta própria escrevendo a minha história. Ainda tem muito preconceito e muitas barreiras para as mulheres, é preciso dar a cara a tapa e ir mesmo assim. O autodescobrimento, o crescimento e as histórias que vivemos provam que nosso lugar é onde quisermos.

 

Empresa: Exchange do Bem (http://exchangedobem.com/)

Responsável: Eduardo Mariano

Cidade: Diani, Mombasa – Quênia

Época: Novembro 2017

Dominique Rubenich

Gaúcha, 25 anos, formada em Biomedicina. Viajante pelo mundo, já tive a oportunidade de desfrutar das belezas de 26 países e pretendo aumentar ainda mais esse número. Amante de novas descobertas, culturas diferentes e pessoas cheias de histórias. Dizem que quem não viaja lê apenas uma página, não é? Bora ler o livro todo!