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Gosta de trilhas e desafios? Você precisa conhecer o Monte Roraima

Alguma vez você já pensou em chegar no ponto mais alto do mundo? Ou fazer a brincadeira do filme “Um amor para recordar” e estar em dois lugares ao mesmo tempo? Falando em filme, por que não se sentir parte da história de um?

Posso dizer que não é tão difícil quanto parece estar em um lugar mágico, digno de filme, talvez não no topo do mundo, mas alto o suficiente para sentir a imensidão que há, e de quebra, estar não somente em dois lugares ao mesmo tempo, mas em três.

Apresento a vocês o Monte Roraima

Com mais de 2 bilhões de anos, 34km² de superfície e 2875m de altitude no ponto mais alto, localiza-se na serra da Pacaraima, fronteira com a Venezuela, Guiana e Brasil. Para os índios, o monte é sagrado, considera-se o coração do mundo. A origem do nome Roraima não é bem definida, um dos significados bem aceitos é “Mãe de todas as águas”, não é à toa que suas águas alimentam as bacias dos principais rios: Orinoco, Amazonas e Esequibo.

O caminho percorrido até o topo é cobiçado por muitos aventureiros, a trilha se inicia na comunidade de Paratepuy, na Venezuela, e de lá em diante pode ter certeza que a natureza irá te surpreender.

A empresa escolhida foi a Roraima Adventures (http://www.roraimabrasil.com.br/), indicada por amigos e agora eu que indico. Sem dúvidas o percurso exige certa estrutura da equipe, pois não há banheiros, nem banhos quentes, nem cozinha e muito menos quartos. O caminho traz consigo a imersão na natureza, sem regalias (nem preciso dizer que sem 4G também!), e para isso a sincronização dos carregadores com o guia e o grupo precisa ser perfeita, a fim de garantir o melhor aproveitamento de toda a aventura.

Saímos de Boa Vista às 12h30, após um encontro com a equipe e conhecer as pessoas que iria conviver 24h pelos próximos 8 dias. Percorremos de carro 220km até a cidade de Santa Elena de Uayrén, na Venezuela. Como todos sabem, a Venezuela se encontra em um período não muito agradável, entretanto, o processo de atravessar a fronteira foi extremamente tranquilo e o único contato com a situação atual do país foi próximo a cidade que nos hospedamos na primeira noite.

Início da jornada

O primeiro dia começa cedo – e assim será todos os demais -, com saída prevista para às 7h30, embarcamos rumo à Paratepuy. Mais 100km de estrada, boa parte asfaltada, mas a emoção começa quando entramos na estrada de chão, sinal que estamos perto de começar uma das maiores aventuras da vida! Nessa comunidade conhecemos os nossos carregadores, pessoal que estará dando todo o suporte possível, eles carregam cerca de 30kg em uma cesta chamada de Guayare. Existe a opção de contratar um carregador pessoal para levar a sua mochila ou qualquer outro pertence, pode ser adicionado até 15kg (que pode ser divido entre os coleguinhas de trilha).

Are you ready for it??? Preparados ou não aqui começa a caminhada e a única coisa que posso dizer é: não importa se é experiente ou não, o quanto treinou na academia ou seguiu as recomendações pré-subida, a gente nunca está 100% preparado para o que vai encontrar. As condições climáticas são diferentes para cada dia, se terá sol, chuva ou vento, só saberá quando estiver lá. Para os índios, o guardião do Monte se chama Makuaima, ele que comanda a natureza e altera as condições locais. Ele testa a força de vontade de cada um que deseja subir até o topo, tornando uma verdadeira prova de persistência, e a cada obstáculo uma recompensa (e que recompensas!).

Foto: @domirubenich

Independente de acreditar nas histórias ou não, o caminho é sim uma prova, é uma prova pessoal, de superação, de seguir em frente e acreditar em si mesmo. A caminhada se inicia a 1300m de altitude e termina no acampamento do rio Tek (1050m). São 16 km de caminhada em terrenos acidentados, pedras soltas e vegetação baixa. O sol queimando a mil e pontos para coletar água a cada 1h30, aproximadamente. Logo de início nos deparamos com a subida da morte, sim, o nome aterrorizante é condizente com a realidade. É uma subida tão íngreme que ao chegar no final dela a única vontade e se jogar no chão e ali ficar até voltar a sentir as pernas. Brincadeiras à parte, a subida é tensa, mas é possível – e acredito que essa frase resume muito bem toda trilha. Atravessamos alguns rios, subimos e descemos, até que chegando no meio do percurso, ofegante, me deparo com frutas deliciosas cortadas só esperando para serem devoradas, e é nessa hora que percebemos a diferença de uma empresa bem organizada e atenta às necessidades. O primeiro dia foi de sol escaldante, caminhamos pela “Grand Sabana” até encontrar o objetivo final daquele dia. Barracas montadas, pessoal preparando a janta e bora tomar banho no rio Tek. Acreditem ou não, mas essa será a água menos fria que irão tomar banho.

Obs: Com a chegada no acampamento do rio Tek, até mais ou menos metade da subida do dia seguinte o repelente se torna teu melhor amigo, os pupuri atacam sem piedade e conseguem incomodar até com o repelente (sei que é contraindicado, mas passei até o rosto).

A segunda noite nos presenteou com um céu limpo e extremamente estrelado, era lua cheia e iluminava os Monte Roraima e Matawi. Com temperatura amena de aproximadamente 17-15°C e muito cansaço, dormimos ansiosos para o dia seguinte.

Segundo dia de subida começa cedo, 5h30 todos em pé, arrumando as mochilas, dobrando os sacos de dormir e assistindo a um nascer do sol sensacional. Café da manhã servido, delicioso (gostaria de exaltar como eram deliciosas as comidas que preparavam), tudo pronto e segue o baile. Subiremos até a base que fica a 1850m de altitude, percurso de uns 7km, sendo basicamente subida, subida e subida. O esforço desse dia foi muito maior do que o do anterior, mesmo caminhando uma distância menor, a subida em terreno acidentado exige muita atenção. Sem contar com o sol escaldante, quase nenhum vento, vegetação rasteira – ou seja, sem sombras-, e água a cada 1h30 (se você subir na velocidade média). Parece tortura essa caminhada, ainda mais descrevendo, mas não é, o que os olhos veem, a emoção de cada passo, cada subida conquistada, olhar o topo do monte Roraima e dizer: vou estar lá. Compensa. São os pequenos sacrifícios que fazemos para atingir nossos objetivos que tornam eles mais especiais.

A chegada no acampamento base é recebida no mesmo estilo: barracas montadas, o almoço quase pronto e banho numa banheira formada por pedras e uma cascatinha. Atenção, essa água foi a mais gelada de todas, somente os fortes e determinados a tomar banho conseguem. Fica ai o desafio!

A paz, o silêncio, a natureza. Lá de cima conseguíamos ver tudo o que percorremos, conseguíamos sentir a energia do Monte. O acampamento base foi aquele divisor de águas, você sabe que está quase lá. Você já se sente incrível por tudo o que passou. Ali, você sabe se consegue continuar ou não. E muitas pessoas já voltaram, afinal, não é fácil chegar até onde se chegou, é preciso conhecer seus limites. Para mim, chegar na base foi a certeza de que conseguiria, que queria ir além, que queria explorar mais, que queria ver mais. O que vi, e principalmente o que senti, é difícil de escrever.

Terceiro dia da subida, vocês já pegaram o esquema, acordar cedo, 5h30, arrumar a mochila, comer o café o da manhã e rumo ao topo. Esse dia serão em torno de 4h subindo, em aproximadamente 4,5km. Esse dia eu classifico como uma “escalaminhada”, e não caminhada, afinal, o que mais se usa são as mãos para ajudar a passar pelas pedras. Esse dia, estamos dentro da floresta, o sol não bate direto, a sensação térmica é mais agradável. Porém, pegamos chuva. Uma chuva que não atrapalhou nosso desempenho, somente nos fez aumentar ainda mais o cuidado a atenção para não cair nas pedras ou se desequilibrar e ir desfiladeiro a baixo. A neblina fechou toda a nossa visão para a vista lateral, para baixo ou para cima. O passo das lágrimas é um pedaço da subida em que há pingos (que se tornam uma cachoeira em dias de chuva forte), assim, as pedras são úmidas, com limo e escorregadias. A nossa sorte era que a chuva não havia sido forte o suficiente para aumentar o fluxo de água, então a passagem estava relativamente tranquila. Esse dia se resume em: atenção por onde anda, evitar qualquer lesão ou acidente por descuido. Não preciso dizer que a subida foi um sucesso e chegamos no topo super animados; a surpresa foi que a chuva aumentou, o vento estava muito forte e o frio arrebatador, e nós, molhados, suados e com roupa curta, nem preciso dizer o frio que passamos até chegar no acampamento, né!?

Foto: @domirubenich

Como já comentei, a equipe de carregadores estava perfeitamente sincronizada com o guia que já estava nos esperando com chá quentinho e as barracas montadas. Passamos o resto dia próximo ao acampamento, explorando algumas pedras, curtindo o visual e se mantendo aquecidos. Para esse dia existe a opção de tomar banho nas jacuzzi (de água gelada), porém foi meio consenso do grupo que o banho seria de gato.

Quarto dia, 5h30 todos de pé para a saída as 7h, lá em cima é importante sair cedo para conseguir ver as bordas com as nuvens abaixo do Monte; mais ou menos pelas 9h as nuvens sobem e não consegue mais ter a vista e perde o efeito. O movimento das nuvens é explicado pela chuva que teve no dia anterior: a água que fica na floresta na base evapora na presença do sol, formando as nuvens. Nesse dia percorremos ao todo 24km, passando por pedras, subindo e descendo. Esses 24km pareceram muito mais, cansaram muito mais e exigiram muito mais. Passamos pelos principais pontos do topo, como o vale dos cristais, o ponto triplo – marco das divisas entre Venezuela, Brasil e Guiana (onde você pode estar em três lugares ao mesmo tempo) e el fosso.

Vou dar uma atenção especial ao El Fosso por ter sido meu lugar preferido. Consiste em um buraco com uma queda de água em um dos lados, no fundo tem água gelada, obviamente. Possui uma caverna lateral cheio de pilares contorcidos e no final uma “prainha” com uma fenda em cima por onde chega a luz que ilumina o interior. O acesso se dá por um caminho por cima da fenda que eu recomendo que seja feito na presença de um guia, afinal pode ser bem perigoso se não tomar cuidado. Apesar da água gelada, vale o banho, é mágico ali embaixo.

Lá em cima tem um microclima ainda mais indeciso, toda hora eu colocava e tirava o casaco, bem ao estilo karatê kid. Só que na volta, o tempo virou de vez, deixou de ser aquele dia ensolarado para virar um dia de neblina, em que tínhamos que caminhar próximos para não perder de vista. E justo na caminhada da volta que minha mente começou a pregar peças. E sobre isso que vou falar agora: em várias situações da vida, do cotidiano, duvidamos de nós mesmos, achamos que não iremos conseguir, que não somos bons o bastante, o que não é verdade, nossa cabeça que cria essas inseguranças e isso que eu vivi lá também. Cada passo que dei naquela volta ao acampamento foi com medo, medo de me perder do grupo, medo não chegar no acampamento, medo de não conseguir mais acompanhar. Só que ao mesmo tempo que sentia medo, meu corpo estava caminhando, seguindo o grupo, meio devagar, mas estava indo. Um dos guias me esperou, foi andando devagar do meu lado, dizendo que faltava uma pedra. UMA PEDRA! E eu tendo aquela briga interna na cabeça sobre se iria conseguir ou não. Adivinhem? Consegui, cheguei no acampamento, cansada, nervosa, mas estava lá junto com os outros. Esse foi o primeiro ensinamento do Monte Roraima para mim: Você é muito mais do que espera que seja.

O quinto dia começou como os outros, saímos cedo para ver a La ventana, uma janela formada por pedras que está aberta pelas nuvens bem cedo da manhã. A caminhada foi bem mais tranquila, distâncias menores. Passamos pela cachoeira do Salto Catedral, tomamos banho nas jacuzzi e subimos o ponto mais alto, a pedra Maverick. De lá é possível ver toda a ‘Grand Sabana”, porém não tivemos tanta sorte e as nuvens fecharam tudo o que poderíamos ver. Todos os caminhos feitos no topo possuem uma beleza singular, é incrível a quantidade de bromélias nas mais variadas cores e tamanhos, samambaias gigantes, pedras com formatos diferentes que aguçam a imaginação. Os vales entre as formações rochosas, com cachoeiras, pequenas quedas de água e rios. O cenário é de outro planeta, de 2 bilhões de anos atrás. O Monte Roraima serviu de inspiração para a animação Up – Altas Aventuras e mesmo não tendo cachorros falantes e animais gigantes, é um lugar mágico e que vale o esforço.

Foto: @domirubenich

O sexto dia era dia de despedida do topo, fomos a um mirante próximo a trilha para tentar gravar na memória todos os detalhes. A descida todo santo ajuda, não é mesmo? Levamos cerca de 2h para percorrer a trilha até a base, tivemos pouco mais de sorte por não ter chovido durante a manhã, porém logo após o almoço, caminhando em direção ao rio Tek, prontos para percorrer 7km (além dos 4,5km já percorridos), a chuva chega, e chega forte. Forma uma passagem de água corrente no caminho, os pés nadando dentro das botas, capa de chuva mostrando a que veio. Não parei, não descansei, não tirei a mochila das costas, pensava em chegar no acampamento logo. Nessa ânsia em chegar junto com pedras soltas e terreno acidentado, virei o pé (o que prova que descuido pode sim causar lesões e acidentes), foi uma torção leve e como estava usando o stick, consegui sustentar parte do corpo nele. Isso me atrasou um pouco, mas nada que impedisse que seguir. Com a chuva, o nível do rio aumentou, um dos carregadores estava a postos aguardando a gente para atravessar um de cada vez. O que seria uma viagem dessas sem emoção, né! Assim que atravessamos o rio, a chuva cessa e terminamos os últimos 40min de trilha com sol, perfeito para chegar morrendo de calor se jogar no rio Tek novamente para aquele banho merecido. O dia termina tranquilo, com direito a cerveja e tudo. Fomos dormir realizados: claro ou com certeza?

O sétimo dia tudo igual, guardamos tudo e seguimos para os últimos 16km. Saímos de 1050m de altitude e voltaríamos à Paratepuy que fica a 1300m, ou seja, mais subida. Esse dia foi exatamente como o primeiro, sol escaldante, vegetação rasteira, terreno acidentado. Já estávamos familiarizados, percorri esses últimos km satisfeita, não acreditando no que havia visto, no que havia feito. Esta foi minha primeira caminhada de longa duração, primeira vez acampando sem auxílio de carro, eletricidade ou afins, primeira vez carregando os 10kg da minha mochila nas costas e os 3kg da mochila de ataque na frente. Me sinto vitoriosa e realizada!

E você, vai encarar?

 

Detalhes

Empresa: Roraima Adventures – http://www.roraimabrasil.com.br/

Pacote: Circuito Místico Catedral

Data da viagem: 31 de março à 7 de abril

Melhores meses para ir: de outubro a maio (Julho chove muito e todos os dias)

Guia: Everaldo – Borraca

Gaúcha, 25 anos, formada em Biomedicina. Viajante pelo mundo, já tive a oportunidade de desfrutar das belezas de 26 países e pretendo aumentar ainda mais esse número. Amante de novas descobertas, culturas diferentes e pessoas cheias de histórias. Dizem que quem não viaja lê apenas uma página, não é? Bora ler o livro todo!

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